sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A internet

A internet nos faz olhar o mundo sobre vários pontos de vista.
Nos faz ter muitas e muitas relações sociais.
Mas têm nos afastado dos livros, diminuído nosso vocabulário e capacidade de falar sobre outra coisa que não seja nós mesmos.
Não conversamos mais com as pessoas da nossa própria casa, não telefonamos pros amigos, não sabemos o nome do vizinho, estamos conectados, somos modernos.


Este texto de Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de S. Paulo fala justamente sobre as relações pessoais que ficam submetidas as relações virtuais. 
É daqueles textos para lermos com calma, refletirmos por muito tempo, discutirmos com os nossos amigos - pessoalmente - e  claro compartilhar ;p




Vizinhos e internautas

Rio de Janeiro - Estudiosos do comportamento humano na vida moderna constatam que um dos males de nossa época é a incomunicabilidade das pessoas. Já foi o tempo em que, mesmo nas grandes cidades, nos bairros residenciais, ao cair da tarde era costume os vizinhos se darem boa-noite, levarem as cadeiras de vime para as calçadas e ficar falando da vida, da própria e da dos outros.
     A densidade demográfica, os apartamentos, a violência urbana, o rádio e mais tarde a TV ilharam cada indivíduo no casulo doméstico. Moro há 18 anos num prédio da Lagoa; tirante os raros e inevitáveis cumprimentos de praxe no elevador ou na garagem, não falo com eles nem eles comigo. Não sou excessão. Nesse lamentável departamento, sou regra.
     Uma de minhas filhas vangloria-se de ser internauta. Tem amigos na Pensilvânia e arranjou um admirador em Dublin, terra do Joyce, do Bernard Shaw e do Oscar Wilde. Para convencê-la de seus méritos, ele mandou uma foto em cor que foi impressa em alta resolução. É um jovem simpático, de bigode, cara honesta. Pode ser que tenha mandado a foto de um outro.
     Lembro a correspondência sentimental das velhas revistas de antanho. Havia sempre a promessa: "Troco fotos na primeira carta." Nunca ouvi dizer que uma dessas trocas tenha tido resultado aproveitável. Para vencer a incomunicabilidade, acredito que o internauta deva primeiro aprender a se comunicar com o vizinho de porta, de prédio, de rua. Passamos uns pelos outros com o desdém de nosso silêncio, de nossa cara amarrada. Os suicidas se realizam porque, na hora do desespero, falta o vizinho que lhe deseje sinceramente uma boa-noite.

Cony, Carlos Heitor. Vizinhos e internautas. Folha de S. Paulo, 26 de jun. 1997. Opinião, p.A2

Um comentário:

  1. Acho que uma parte de uma das músicas do Renato Russo cabe a este texto: "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã." Ao meu ver, não só estamos perdendo a capacidade de nos comunicar com o próximo, mas também diminuindo o nosso amor por ele.

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